Época: Baixaria no desfile

Publicada em 10/03/2010.

Num ataque absurdo, tradicionalistas gaúchos açoitam em público um candidato gay a deputado

Um rompante de intolerância maculou uma data tradicionalmente celebrada pelos gaúchos, o aniversário da Revolução Farroupilha. No 20 de setembro de 2002, feriado no Rio Grande do Sul, um militante da causa homossexual e candidato a deputado estadual pelo PPB, José Antônio San Juan Cattaneo, foi açoitado em público por um grupo de homens montado a cavalo, usando bombachas e empunhando relhos para domar animais. Na parada que reuniu 4 mil pessoas no Centro de Porto Alegre, Cattaneo foi alvo da ira irracional de quem o considerou um intruso na festa.

Conhecido como Capitão Gay, o candidato precisou infiltrar-se, devidamente paramentado, num dos grupos típicos da parada. Quando passava em frente ao palanque do governador Olívio Dutra, o militante puxou da jaqueta o estandarte arco-íris, símbolo do movimento gay, e soltou o brado: ?Esta é a verdadeira bandeira da revolução?. Minutos depois, a ousadia foi duramente reprimida. Ao final do desfile, quando dava entrevistas, Cattaneo foi cercado por um bando que lhe aplicou uma surra de relho ? chicote tradicional de couro torcido. Conseguiu fugir pela avenida, sendo perseguido por vários quarteirões. ?É a velha prática da exclusão dos homossexuais. Participei para defender minha liberdade de expressão?, disse, indignado. 
 
O que se viu em Porto Alegre foi um ato de selvageria espantoso, mesmo para quem considera a sobrevivência de preconceitos contra gays no Brasil. Não é de hoje que Cattaneo tem abalado o proverbial brio machista dos gaúchos. No início do mês, promoveu uma cavalgada de sua cidade, Pelotas, até a capital. Entre os cavaleiros, dois travestis vestiram-se de prenda, a típica mulher gaúcha. No dia 7 de setembro, trajando bombachas cor-de-rosa, Capitão Gay foi recebido a pedradas num acampamento de tradicionalistas. Suas táticas de luta nem sempre são bem compreendidas.

?Cattaneo provocou a ira de indivíduos incapazes de lidar com o próprio preconceito?, analisa a desembargadora Maria Berenice Dias, do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul. ?Por que não pode existir um gaúcho gay de bombachas? Isso não agride ninguém?. Os organizadores do evento evitaram dar explicações. ?Foi um fato irrelevante e talvez tenha ocorrido alguma provocação?, insinua Manoelito Savarís, presidente do Movimento Tradicionalista Gaúcho. O governador, que foi à festa paramentado, abrigou-se no silêncio. A desembargadora lamenta. ?Incidentes assim são um retrocesso para a democracia?, diz.


 

Autor: Alexandre Mansur
Fonte: 23 de setembro 2002 ? Época - pág. 71

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