Troféu Cidadania Luiz Mott

Publicado em 10/03/2010

Discurso proferido por ocasião do recebimento do Prêmio Cidadania Luiz Mott, outorgado pelo movimento GLBT de Vitória da Conquista ? Bahia, em 06/07/2006.
 

Tudo o que queria era estar aqui neste momento.

Mas por gentileza de uma amiga tão querida que aqui me representa quero ao menos poder dirigir-lhe algumas palavras.

Queria que todos soubessem que um dia sonhei um sonho, que não sabia que não podia sonhar.

Sonhei ser juíza, para fazer justiça, ajudar a construir uma sociedade com menos diferenças, menos violência.

Eu só não sabia que a função de julgar estava reservada aos homens. Às mulheres não era permitido exercer tão nobre função, apesar de a justiça ser representada por uma deusa mulher ? Themis.

Mesmo assim, tanto lutei, tanto gritei, que acabei conseguindo, e me tornei a primeira mulher a ingressar na magistratura do sul do país.

Na busca do meu ideal percebi que não eram exclusivamente as mulheres alvo da exclusão social e jurídica, mas todas as minorias alijadas do poder.

A solução é não ver, é considerar imoral, contra a ética e os bons costumes tudo o que refoge à mesmice do igual.

E esta é a mais cruel forma de punir quem ousa ser diferente, pois negar direitos é gerar terríveis injustiças.

O resultado é perverso, pois acaba condenando à invisibilidade.

Assim, busquei afastar ultrapassados conservadorismos e acabei abraçando a bandeira de todos a quem a sociedade vira o rosto, o legislador nega a cidadania e a justiça relega à margem da juridicidade.

Não tive medo de enfrentar a tudo e a todos.

 Escrevi o primeiro livro defendendo a necessidade de as uniões das pessoas do mesmo sexo ? que chamei de união homoafetiva ? serem abrigadas no Direito de Família, pois se trata de uma sociedade de afeto.

Claro que enfrentei e continuo enfrentando todo tipo de questionamentos, ironias e agressões, mas nada me detém: não canso de falar, falar todo o tempo e em todos os cantos para quem quer, mas principalmente, para quem não quer ouvir.

Todos que estão aqui hoje sabem, mais do que ninguém, que não é fácil vencer preconceitos e romper tabus.

Por isso este prêmio tem um enorme significado para mim.

Obrigada por me concederem o privilégio de participar deste momento que homenageia quem nunca teve medo de denunciar violências, buscar direitos e clamar por justiça.

Luiz Mott, com certeza, é uma das maiores figuras que se destaca no panorama nacional na luta contra a homofobia. Um querido amigo que a Bahia acaba de reconhecer como cidadão.

Tenham certeza que a luta é o caminho para assegurar o respeito à dignidade, valor maior de uma sociedade que se quer livre, democrática e justa.

Vocês, ao me homenagearem com tanto afeto, me fazem crer que vale a pena continuar sonhando com um mundo mais igual, mais livre, mais humano, um mundo que saiba conviver com todos e respeitar as diferenças.

Espero que todos sejam felizes, felizes como me senti ao ser agraciada com esta honraria.

Copyright 2017. Maria Berenice Dias

Maria