Posse na Academia Literária Feminina

Publicado em 10/03/2010

Discurso de posse na Academia Literária, cadeira n° 37, ocorrida no dia 26 de agosto de 2000.
 
Gostaria de cumprimentar a todos, que me honram com suas presenças, na pessoa da ilustre Presidente desta Academia, Professora Doutora Gisele Bueno Pinto, cujas determinação e segurança muito têm contribuído para elevar ainda mais esta congregação e a quem, com muita honra, tenho como minha madrinha, por ter feito a indicação de meu nome para ingressar neste nobre e respeitado sodalício, a Academia Literária Feminina do Rio Grande do Sul, entidade quase sexagenária, fundada em 1943, que desde então enriquece a história das letras não só do Estado, mas da Nação.

Grande é a emoção que me assalta. Tamanha, que, apesar de ter o vezo de falar de improviso, fiquei com medo de ser traída pelo sentimento.

Há momentos em que, se nos fosse possível parar o tempo e retratá-lo para figurar no álbum dos bons momentos da vida, este seria um deles e, com certeza, ocuparia um lugar de honra nesta galeria de fotos.

Muitos dos acontecimentos de nossa vida são os frutos que se colhem de  sementes que foram plantadas. Vitórias há que são previsíveis, porque predeterminadas pelo planejamento ou pelo simples curso dos acontecimentos. Por terem sido buscadas, integram o mundo da previsibilidade. Mas nada se compara ao fato inusitado, aquele que nos assalta de surpresa e redobradamente nos enternece a alma. Os lauréis não perseguidos, quando conquistados, significam felicidade dupla.

Confesso que, não sendo afeita às lides literárias, fui pega de surpresa pela comunicação de haver sido, em votação unânime, indicada para integrar esta agremiação, o que faz com que me sinta um pouco constrangida em adentrar neste verdadeiro sacrário dos versos e das prosas gaúchas.

Tornei-me, no entanto, escriba por dever de ofício, cabendo lembrar que a palavra ?sentença? tem a mesma origem da palavra ?sentimento?, ambas significando ?algo que se sente?, a indicar que o julgamento deve guiar-se pelo sentimento de justiça. Mesmo que tenha escrito dois livros, tenha participado de algumas obras coletivas e inúmeros sejam os artigos publicados; ainda que haja logrado publicar 35 edições do Jornal Mulher ? primeiro periódico voltado para as questões do gênero ?, mesmo assim não considero que detenha méritos para integrar esta academia literária, na qual expoentes maiores de nossa literatura estão imortalizadas.

A missão de fazer justiça era tida no Rio Grande do Sul como prerrogativa exclusivamente masculina. Vedado era o ingresso das mulheres no Poder Judiciário. Por ser a primeira mulher a conseguir adentrar na magistratura gaúcha, fui alvo de severa discriminação, o que me levou a empreender uma verdadeira guerra na tentativa de assegurar o cumprimento da norma maior da nossa Constituição - o direito à igualdade e o respeito à dignidade humana. Participei de todos os eventos feministas que ocorriam, até na distante China. Presidi uma entidade feminina. Criei um serviço voluntário de atendimento jurídico e psicológico chamado JusMulher. Subi em inúmeros palanques. Ocupei espaços na mídia. Escrevi artigos e proferi muitas palestras. Tudo para que a voz da mulher fosse ouvida. Hoje, graças à luta de todas nós, já conquistamos mais visibilidade. Mas ainda falta muito a conquistar. E para isso a luta deve continuar.

Por isso, me envaidece esta distinção, e a recebo com humildade, como que significando a adesão das mulheres às questões sociais. Creio que o fator maior que deu origem ao honroso convite que hoje se concretiza nesta posse solene é o fato de ter empunhado a bandeira da causa feminina, passando a bradar aos quatro ventos a necessidade de ser resgatada a cidadania da mulher, do mesmo modo que a de segmentos outros, igualmente discriminados, como as relações que prefiro chamar de homoafetivas.

É necessário que as mulheres passem a ter reconhecida sua presença na história, até hoje tida e havida ? apenas ? como função masculina, tal como se não tivesse havido a participação de valorosas mulheres na evolução da civilização humana.

Ocupar a cadeira de ADELAIDE SCHLOENBACH BLUMENSCHEIN não é mera coincidência. Como todas as pioneiras, esta professora, além de poetisa e cronista, foi também feminista. Viveu tempos mais difíceis, ainda, do que os atuais: de 1882 a 1963, e quantas discriminações deve ter sofrido. Tantas, que precisou refugiar-se atrás do cognome de Colombina. Seu espírito irrequieto e vanguardista revela-se na sua coragem de ter sido a primeira mulher a publicar versos eróticos. Por isso foi alvo de profundo preconceito, pois às mulheres sempre se vedou externar sentimentos, vontades, anseios, desejos, sendo-lhes reprimidas atitudes somente permitidas ? e até incentivadas ? aos homens, para dar mostras de sua virilidade.

Também ocupou esta cátedra MARIA DA ROCHA POÇAS, poetisa sensível, que fez dos versos e da literatura infantil a razão de sua vida, que transcorreu entre 1919 e 1999.

Sucedê-las é honra e encargo de muita responsabilidade.

Mas não são apenas esses os aspectos que fazem deste momento um instante a ser cristalizado de forma perene.

A presença de minhas filhas, Suzana e Denise, me emociona. Elas, juntamente com o Cesar, nunca me cobraram as ausências provocadas por minhas missões. Sempre souberam transformar minhas falhas em motivo de orgulho. São eles, os meus filhos, a maior razão de meu viver.

Encanta-me a atitude das minhas irmãs, Ana Beatriz e Eurídice. A elas acrescento a Mary, como irmã do coração. Foram elas que organizaram este belo evento, nunca medindo esforços para dividir comigo as tarefas a que meus inúmeros compromissos não me permitem atender.

Ao João Daniel e a Marta, bem como aos meus sobrinhos aqui presentes, a certeza do meu carinho.

Thais, Cintia, Aline, Eloá, obrigada pela cumplicidade.

Este momento se completa com a presença de tantos amigos que sabem entender minhas omissões e jamais cobram minha presença ou reclamam minhas ausências, tanto que hoje estão todos aqui.

Se as presenças me sensibilizam, as ausências são nuvens neste límpido horizonte. Gostaria muito de poder retribuir aos meus pais com este momento, como forma de gratidão.

Também quero registrar a falta que me faz o Sérgio. Nossa identidade de alma transformou a distância em um elemento secundário de nossas vidas, e só nestas oportunidades é que a ausência dói.

Às demais acadêmicas desta casa, espero contar com a mesma paciência que se faz necessária no ensino das primeiras palavras.

Por fim, consigno meu profundo agradecimento a esta criatura incrível que é a Presidente desta agremiação. Espero, de coração, que permaneça realizando este belo trabalho à testa desta entidade. Advogada, professora, poetisa e musicista, que tão bem sabe transformar reveses da vida em punhados de versos. Versos maviosos, repletos de substância, que deleitam o espírito. Falam diretamente ao coração.

Todos que aqui estão me conhecem e sabem que tenho buscado identificar os relacionamentos pela só presença do vínculo afetivo. É o elo que une as pessoas, e deve ser cultivado como o sentimento mais caro que as envolve. Por isso, hoje estou me sentindo plena de felicidade.

Gisele, obrigada. Meus colegas desembargadores, minhas colegas acadêmicas, meus familiares, meus amigos, obrigada, muito obrigada por virem testemunhar este belo momento de minha vida.

Copyright 2017. Maria Berenice Dias

Maria